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quinta-feira, 3 de março de 2022

Jovens negros são mortos em ação policial e moradores acusam PMs

Foto: Reprodução/Redes sociais
Os próprios militares chegaram a levá-los para o Hospital Geral do Estado, mas os jovens já chegaram na unidade sem vida. Em uma comunidade às margens da baía de Todos os Santos, em Salvador, três jovens negros foram mortos durante uma ação policial na madrugada desta terça-feira, 1. De acordo com a Polícia Militar, alguns agentes foram chamados para atender uma denúncia de que homens armados estariam em um estabelecimento comercial e foram recebidos por disparos assim que chegaram no local. A versão da polícia é negada por moradores, que alegam que os militares atiraram sem haver confronto. Cleberson Guimarães e Patrick Sapucaia, ambos de idades não informadas, e Alexandre dos Santos, de 20 anos, estavam em um bar por volta das 2h. A polícia alega que houve trocas de tiros e que, depois dos jovens serem baleados, foram encontradas armas e drogas com eles. A versão da PM, de que foram recebidos a tiros pelos rapazes, é contestada por familiares e vizinhos. Conforme relatos coletados pelo UOL, o trio estava bebendo no local quando bombas de gás lacrimogêneo foram lançadas na direção deles. Os próprios militares chegaram a levá-los para o Hospital Geral do Estado, mas os jovens já chegaram na unidade sem vida. Em nota, a Polícia Militar respondeu que a equipe de Rondas Especiais Baía de Todos os Santos foi acionada depois de receber a informação de homens armados na área de Gamboa. Na versão da corporação, os agentes foram recebidos por disparos de armas de fogo efetuados por um grupo quando faziam incursões. “Após o revide e posterior progressão no terreno, as equipes encontraram três homens caídos ao solo em posse de armas de fogo e drogas. Já os outros suspeitos conseguiram fugir. Os feridos foram socorridos pela guarnição para o Hospital Geral do Estado (HGE), onde não resistiram”, diz o comunicado Ainda segundo a PM, durante prestação de socorro, manifestantes jogaram entulhos, obstruíram a pista em ambos os sentidos e hostilizaram as guarnições, que solicitaram reforços. Foram apreendidos, de acordo com os agentes, em posse dos três suspeitos um revólver calibre 38; duas pistolas, sendo uma de calibre .40 e outra de calibre 380; 177 papelotes de maconha; 233 pinos e dez embalagens de cocaína; 130 pedras de crack; três aparelhos celulares; uma balança eletrônica, R$ 172,00 em espécie e um relógio de pulso… O caso foi registrado na Corregedoria-Geral da PM. “Pegaram meu filho para matar” Mãe de Alexandre, a auxiliar de vendas Silvana dos Santos, 41, disse a UOL que despertou com o barulho de tiros e decidiu sair de casa para ver o que estava acontecendo. Ao descobrir que Alexandre, o segundo de oito filhos, era um dos rapazes baleados, ela tentou evitar que o jovem fosse colocado no porta-malas de uma viatura. Nesse momento, Silvana relata que ficou na mira de uma arma apontada por um PM. “Meu filho ainda estava vivo, pedia por socorro. Mas apontaram a arma para a minha cabeça, e não tive mais o que fazer”, lamentou, enquanto se preparava para liberar o corpo do jovem no IML (Instituto Médico Legal) da capital baiana. A auxiliar de vendas acredita que o assassinato foi premeditado e que, na ocasião, os policiais usavam capuzes para esconder os rostos. “Esses policiais pegaram o meu filho e os outros dois rapazes pra matar. Se não fosse isso, eles não estariam encapuzados”, diz. Silvana conta que o filho trabalhava como vendedor de roupas por encomenda na própria comunidade. Segundo ela, pouco antes de ser morto, o rapaz voltava da casa da namorada e parou para tomar cerveja com Cleberson e Patrick. Um grupo de moradores da Gamboa, inconformado com a versão que a PM apresentou, protestou durante a manhã na avenida Contorno, vizinha à Gamboa. Durante a manifestação, as pistas foram fechadas e um longo engarrafamento no local foi ocasionado. “Se não fosse esse protesto, nem o pessoal dos direitos humanos viria aqui para saber o que aconteceu. Ficaria como se fosse a morte de um cachorro. Mas não foi o que aconteceu. A polícia encurralou três meninos que nada deviam. Depois que mataram, eles [os militares] lavaram até a casa lá. Usaram lençóis que estavam em um varal e plantaram armas e drogas, como sempre fazem. Queremos que a justiça seja feita”, declarou uma líder comunitária, que pediu para ter a identidade preservada. Em uma nota assinada conjuntamente, a Articulação dos Movimentos e Comunidades do Centro Antigo de Salvador e demais entidades criticam o que veem como mais um caso de execução sumária cometida por forças de segurança do Estado. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2021, em levantamento mais recente feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com dados do ano de 2020, 75,3% das vítimas de homicídio no Brasil eram pessoas negras. Entre as pessoas mortas por policiais, 78,9% são negras. Não existe, na esfera do poder público, uma divulgação transparente de dados oficiais nacionais sobre homicídios ou sobre mortes provocadas por policiais nas regiões brasileiras. O governo brasileiro também não disponibiliza dados nacionais sobre as investigações e punições de homicídios. Leia a íntegra da nota de repúdio “A Articulação dos Movimentos e Comunidades do Centro Antigo de Salvador e entidades abaixo listadas denunciam a operação da polícia militar da Bahia na comunidade pesqueira da Gamboa de Baixo. Foram executados sumariamente pela polícia os jovens: Patrick Sapucaia, Alexandre Santos e Cleberson Guimarães. A violência policial permanece como prática corriqueira e naturalizada contra moradores da Gamboa de Baixo. Os depoimentos de testemunhas apontam que as mortes dos jovens não foram decorrentes de resistência e que não houve qualquer reação ou troca de tiros. A polícia não agiu em legítima defesa! Afirmamos que toda pessoa tem direito à vida, ao devido processo legal e a um julgamento imparcial, sendo inadmissíveis execuções arbitrárias como aconteceu… Os corpos das vítimas foram removidos e o local das execuções foi alterado, impossibilitando, por óbvio, a apuração dos fatos. Além das execuções e tiros aleatórios foram atiradas bombas de gás na Comunidade, de cima da avenida Contorno. A operação não se funda em qualquer mandado de busca e apreensão, como determina a lei! A Polícia Militar da Bahia é considerada a mais letal do Nordeste e é líder em mortes por chacinas, segundo dados do relatório “A vida resiste: além dos dados da violência”, da Rede de Observatórios da Segurança. Esses números reforçam a política do estado de genocídio da população negra… A Gamboa de Baixo é uma comunidade tradicional do início do século XX, autodeclarada comunidade pesqueira, classificada como Zona Especial de Interesse Social-ZEIS 5 na Lei Municipal no 9069/2016, Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Salvador. Os (as) moradores e moradoras da comunidade são sujeitos de direitos e merecem respeito! Uma ação violenta e arbitrária como essa não pode ficar impune! Exigimos o afastamento e responsabilização dos envolvidos. Que o Estado investigue criteriosamente as execuções e todas as demais ilegalidades causadas por seus agentes de segurança contra a comunidade da Gamboa de Baixo nessa madrugada, respeitando o protagonismo das vítimas e seus familiares… Artífices da Ladeira da Conceição da Praia Associação Amigos de Gegê dos Moradores da Gamboa de Baixo Centro Cultural Que Ladeira é Essa? Movimento Nosso Bairro é 2 de Julho Movimento dos Sem Teto da Bahia (MSTB) Coletivo Vila Coração de Maria Grupo de Pesquisa Territorialidade, Direito e Insurgência (UEFS) Grupo Margear- Faculdade de Arquitetura da UFBA SAJU- Serviço de Apoio Jurídico da Faculdade de Direito da UFBA MLB Coletivo Resistência Preta Coletivo Trama Campanha Zeis Já Observatório da Mobilidade Urbana de Salvador Residência AU+E (FA-UFBA) Grupo de Pesquisa Ecologia Política, Desenvolvimento e Territorialidades (PPGTAS-UCSAL) Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico (IBDU) Grupo de Pesquisa Territórios em Resistência (PPGTAS-UCSAL) Confederação Nacional das Associações de Moradores (CONAM) Grupo de Pesquisa Lugar Comum (PPGAU-UFBA) IDEAS – Assessoria Popular CESE – Coordenadoria Ecumênica de Serviço GAMBÁ – Grupo Ambientalista da Bahia” Fonte:https://jornaldebrasilia.com.br/

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