Flávio e Michelle Bolsonaro se enfrentam tendo como pano de fundo mais de 400 anos de tradição política | Foto: Reprodução.
Por João Reynol
Enquanto projetos políticos forem tratados como heranças familiares, a República continuará subordinada às ambições individuais.
Os recentes enfrentamentos envolvendo a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro podem ser interpretados como mais um sintoma de um velho problema da política brasileira: o patrimonialismo.
As declarações de Flávio, o vídeo de 27 minutos divulgado por Michelle, no qual ela critica o enteado e questiona a condução da sucessão política da direita, e sua saída da presidência do PL Mulher pelo mando de Jair Bolsonaro reforçam uma percepção recorrente. Muitas vezes, o maior adversário de um grupo político não é o campo oposto, mas as disputas internas por poder.
A lógica do “meu partido”, da “minha candidatura” e do “meu governo” frequentemente se sobrepõe ao interesse coletivo e até mesmo à estratégia eleitoral. Em vez de prevalecer a escolha considerada mais competitiva ou mais capaz de unir um projeto político, ganha espaço a preservação de interesses pessoais e familiares.
Essa dinâmica não é nova. Ela dialoga com uma tradição histórica brasileira marcada pela confusão entre interesses privados e interesses públicos. Desde o período colonial, quando a Coroa portuguesa delegava amplos poderes a particulares por meio das capitanias hereditárias, formaram-se estruturas políticas baseadas em relações pessoais de poder e lealdade.
Ao longo dos séculos, esse modelo assumiu diferentes formas. Durante a República Velha, manifestou-se no coronelismo, sustentado pelo voto de cabresto, pelo clientelismo e pela concentração do poder político nas mãos de poucas famílias influentes. Embora o contexto histórico tenha mudado, a lógica de transformar espaços públicos em patrimônio político particular continua presente em diversas esferas da vida pública.
Não se trata apenas de um problema da direita ou da esquerda. Trata-se de uma cultura política que atravessa diferentes partidos, governos e gerações. Famílias tradicionais, grupos políticos consolidados e sucessões hereditárias de poder continuam sendo fenômenos frequentes na política brasileira.
É justamente essa predominância do “eu” e do “meu” que contrasta com o próprio sentido da palavra República. Derivada do latim res publica, a expressão significa “coisa pública”, aquilo que pertence à coletividade e deve ser administrado em benefício do conjunto da sociedade.
Sob essa perspectiva, a disputa pública entre integrantes da família Bolsonaro pela liderança eleitoral de 2026 extrapola um conflito doméstico ou partidário. Ela simboliza uma cultura política que, muitas vezes, trata projetos de governo como extensões de projetos familiares e transforma o poder em patrimônio privado.
Enquanto essa lógica prevalecer sobre o interesse público, o Brasil continuará convivendo com um sistema que privilegia grupos e sobrenomes acima das instituições. E uma democracia na qual o poder pertence às famílias, e não aos cidadãos, dificilmente conseguirá colocar o bem comum acima das ambições individuais.
Fonte: Jornal OPÇÃO


























