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terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Do crime à prisão: detalhes sobre a tragédia ocorrida nesta segunda (15/1)

 

Os bombeiros encontraram a vítima com sangramento nos ouvidos e parada cardiorrespiratória. Os socorristas tentaram reanimar Diana, mas ela não resistiu - (crédito: Ed Alves/CB/DA.Press)

Em um intervalo de cinco dias, o DF contabilizou mais um assassinato contra mulher por razão de gênero. Diana Faria Lima, 37 anos, foi encontrada caída no banheiro de casa com sinais de estrangulamento. O assassino está preso


Nos 15 primeiros dias de 2024, o Distrito Federal registrou dois casos de assassinatos contra mulheres por razões de gênero. Os dois ocorreram em um intervalo de cinco dias. Ontem, Diana Faria Lima, 37 anos, foi encontrada caída no banheiro de casa com sinais de estrangulamento e várias lesões pelo corpo, na QNM 24 de Ceilândia Norte. O assassino é o companheiro dela, Kelsen Oliveira de Macedo, 42, que foi preso depois de se apresentar à Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam 2), no final da tarde de ontem.

A governadora em exercício do DF, Celina Leão, se mostrou indignada com mais um caso de feminicídio. "O que me deixou estarrecida é que os vizinhos ouviram os gritos e ninguém acionou a polícia", questionou. Celina também cobrou mais firmeza da Justiça. "O GDF não tem capacidade jurídica para prender ninguém. Podemos trabalhar na prevenção e na detenção naquele momento, mas a prisão com sentença só o Judiciário pode fazer", destacou.

O crime ocorreu por volta das 4h da madrugada de ontem. Delegada à frente do caso, Letizia Lourenço, chefe da Deam 2, detalha que Kelsen agrediu Diana na madrugada. "Os vizinhos ouviram, mas não entraram em contato com a polícia para tentar evitar o pior, justamente porque entenderam que esse fato ocorria com frequência e que nada acontecia. Letizia acrescenta que, segundo vizinhos, Kelsen bateu o corpo dela contra a parede do banheiro. "Ela apresentava lesões antigas. Após o laudo é que a gente vai conseguir definir a verdadeira causa da morte", assegura a investigadora.

Kelsen acionou o Corpo de Bombeiros por volta das 10h. Ele chegou a conversar com as equipes, alegando que a companheira era dependente química e estava sob efeito de cocaína. Os militares encontraram a vítima com suspeita de traumatismo craniano, com sangramento nos ouvidos e parada cardiorrespiratória. Os socorristas tentaram reanimar Diana, mas a mulher não resistiu. Após ouvir dos bombeiros que a polícia seria acionada, Kelsen fugiu levando as chaves de casa e do carro.

No fim da tarde de ontem, Kelsen se apresentou à Deam 2 junto ao advogado de defesa. Ao Correio, o advogado que representa o agressor, Thiago Caixeta, afirmou que o casal era usuário de drogas e, há quatro dias, usava entorpecentes sem interrupção. "Ele estaria mexendo no telefone dela, viu algumas fotos. Diana teria mostrado a pessoa com quem havia tido uma relação extraconjugal. Ele, então, confessou o crime", disse.

Kelsen vai ficar preso e deve responder por feminicídio. A pena pode ultrapassar 30 anos de prisão.

Brigas constantes

A reportagem apurou que Diana havia trocado o miolo da fechadura da porta da residência porque o suspeito chegou a trancar a porta uma vez e deixá-la trancada no imóvel. A primeira das mais de 10 ocorrências de injúria, lesão corporal e ameaça, envolvendo a Lei Maria da Penha, ocorreu em junho de 2022.

O casal, que estava junto há dois anos — desde o início de 2022 —, tinha brigas constantes durante a noite. É o que conta Gerônimo Barbosa de Oliveira, 57, vizinho de porta da vítima. Segundo ele, Kelsen e Diana se conheceram quando ela precisou de um técnico para consertar a geladeira da residência e chegou a levar ferramentas para a casa da mulher. "Ele se prontificou a vir. Daí em diante, toda vez era isso: ficavam entre idas e vindas", conta o vizinho.

Gerônimo relata que, na madrugada de ontem, ouviu Kelsen xingar a mulher de vários nomes e barulho de batidas. "Eu estava tentando dormir e ouvi muitos palavrões dele, que continuava falando. Quando deu 6h, ele começou a bater na parede. Pensei que era por nervosismo dele pelo fato de ela não querer usar o remédio. Jamais pensei que ele faria o que fez, a agredindo para matar", detalha. O morador do prédio relata que, na manhã de domingo, tentou ligar para a Polícia Civil (PCDF), mas foi orientado a procurar a Polícia Militar (PMDF) para confirmar o crime em flagrante. "Liguei para o 190, mas não atendeu por congestionamento na linha. Chamava até cair", detalha.

Em nota, a PMDF alegou que o vizinho não conseguiu efetivar a ligação, como informa, que só teclou, mas não houve atendimento. "Não consta em nossos registros nenhum acionamento no período entre as 6h e as 6h30 (quando o homem tentou ligar no 190)", esclareceu a corporação. O vizinho lembra que, em outubro de 2023, a namorada dele ligou para a PMDF porque Kelsen agredia Diana, que gritava por socorro. "A Polícia Militar veio, mas parece que ele adivinhava. Quando os policiais estavam chegando, ele fugia. Ele se mudou para cá em definitivo no fim de dezembro, mas ela estava internada para fazer tratamento de limpeza (desintoxicação). Ele descobriu que ela usava remédios psiquiátricos, era pensionista e quis usufruir das condições dela", comenta o vizinho.

O Correio apurou que um juiz do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) revogou o pedido de medida protetiva feito por Diana em outubro do ano passado. "Milhares de mulheres estão protegidas. Mas quando elas baixam a guarda, anula toda a proteção que o Estado deu e ela, ficando em risco", analisa a delegada-chefe da Deam 2, Letizia Lourenço.

Em 2019, Kelsen ameaçou matar outra ex-companheira por não se conformar com a separação. O Correio apurou que ele manteve um relacionamento de sete anos com a ex e, no meio da rua, ele e um comparsa abordaram a mulher. Na ocasião, Kelsen ameaçou e insultou a vítima. "Vagabunda, vou te matar". O comparsa do acusado chegou a perguntar se ele poderia matar a mulher ali mesmo, no meio da rua. "Posso matar ela agora, essa vagabunda", cita o trecho, detalhado pela vítima em boletim de ocorrência contra o ex-companheiro. O crime não se consumou porque o filho da mulher apareceu e socorreu a mãe.

Crime evitável

No ano passado, o DF registrou 30 feminicídios confirmados e quatro em investigação. O maior número contabilizado em toda a história da capita. Especialista no combate à violência doméstica, Cristina Tubino avalia que o caso dessa segunda-feira evidencia que o feminicídio, na maioria das vezes, é um crime evitável quando é denunciado a tempo por pessoas próximas. "Se, de fato, alguém tivesse feito uma ligação e a polícia tivesse ido até lá, essa mulher não teria morrido. A violência contra a mulher não é um problema só do casal, mas da sociedade. Não podemos nos omitir", avalia.

Cristina cita que o ciclo da violência pode ser percebido desde as primeiras agressões verbais e físicas contra a vítima. "Os gritos, barulho de copo na parede, jogar objetos e a ofensa pessoal são um alarme. Para chamar a Polícia Militar não precisa que haja um tiro. No primeiro sinal de violência, as pessoas precisam chamar a polícia. A população precisa entender que se não conseguiu contato no 197 (da PCDF), que liguem para o Corpo de Bombeiros ou tentem duas vezes com a Polícia Militar", aconselha a especialista.

Fonte:  https://www.correiobraziliense.com.br/

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