sábado, 21 de fevereiro de 2026

FANATISMO RELIGIOSO

 



O fanatismo religioso surge quando a fé deixa de ser vivida com humildade, amor e discernimento, e passa a ser praticada de forma cega, intolerante e absolutista. Trata-se de uma devoção exaltada que elimina o espírito crítico, transforma a própria interpretação em verdade incontestável e vê o outro não como próximo, mas como inimigo. Quando isso acontece, a religião, que deveria gerar vida, passa a produzir medo, exclusão e violência.

A Bíblia oferece vários exemplos claros de fanatismo religioso. Um dos mais evidentes são os fariseus no tempo de Jesus. Eram profundamente zelosos da Lei, conhecedores das Escrituras e rigorosos na observância religiosa. No entanto, esse zelo degenerou em legalismo e orgulho espiritual. Em nome da “defesa da fé”, condenaram o próprio Filho de Deus. Jesus denuncia esse fanatismo quando diz que eles “atam fardos pesados e difíceis de suportar” sobre os outros, mas não demonstram misericórdia (Mateus 23). O resultado foi uma religião que excluía, oprimia e matava em nome de Deus.

Outro exemplo bíblico é Saulo de Tarso antes da sua conversão. Convencido de que estava a servir a Deus, perseguiu cristãos, aprovou mortes e espalhou terror na Igreja primitiva (Atos 8–9). O seu fanatismo era tão intenso que ele acreditava que eliminar os seguidores de Jesus era um acto de fidelidade religiosa. Só quando se encontrou com Cristo percebeu que zelo sem amor e sem verdade conduz à cegueira espiritual.

Também no Antigo Testamento vemos consequências trágicas do fanatismo. Israel, em vários momentos, confundiu fidelidade a Deus com violência religiosa, intolerância e confiança cega em rituais, esquecendo a justiça, a misericórdia e o cuidado com o pobre. Os profetas denunciaram duramente essa fé distorcida, afirmando que Deus rejeita sacrifícios quando não há amor ao próximo nem compromisso com a vida (Isaías 1; Amós 5).

As consequências do fanatismo religioso ultrapassam o âmbito espiritual e atingem profundamente a sociedade. Historicamente, guerras religiosas, perseguições, inquisicões e colonialismos foram sustentados por discursos religiosos fanáticos. A religião foi usada para justificar escravidão, genocídios, discriminação racial e opressão cultural, sempre com a convicção de que “Deus está do nosso lado”.

Na sociedade contemporânea, o fanatismo religioso continua a manifestar-se de formas variadas. Vemo-lo em grupos que legitimam violência em nome de Deus, em discursos que desumanizam quem pensa diferente, em comunidades que isolam os seus membros, controlam consciências e impõem medo espiritual. Também se revela quando líderes religiosos se colocam como donos da verdade absoluta, anulando a liberdade, a dignidade e a consciência dos fiéis.

Na prática, o fanatismo produz intolerância, quebra relações familiares, fomenta ódio social, alimenta extremismos e prejudica a saúde mental, transformando a fé em fonte de ansiedade, culpa e medo. Em vez de libertar, aprisiona. Em vez de curar, fere.

A fé cristã autêntica, porém, segue o caminho oposto. Jesus nunca impôs a verdade pela força. Ele chamou, convidou, ensinou e amou. A verdade que Cristo encarna não oprime, não violenta e não exclui; antes, transforma, reconcilia e liberta. Onde o Espírito do Senhor está, aí há liberdade (2 Coríntios 3:17).

Por isso, o grande desafio da Igreja hoje é discernir entre zelo saudável e fanatismo destrutivo. Defender convicções não significa odiar. Proclamar a verdade não autoriza a violência. Fidelidade a Deus nunca pode ser separada do amor ao próximo. Quando a religião deixa de humanizar, ela trai o próprio Deus que afirma servir.

Vigiar contra o fanatismo religioso é um dever espiritual, pastoral e social. Só assim a fé continuará a ser sal, luz e instrumento de vida no mundo.


Fonte: Perfeito Massamba

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