O Senado da República, 2026. Não falta orçamento, não falta assessoria, não falta polícia legislativa. Falta é exorcista.
O senador Magno Malta anuncia solenemente que encontrou um “objeto de feitiçaria” enterrado no jardim anexo ao seu gabinete. O objeto vai para a Polícia Legislativa. O significado… ainda não se sabe. A laicidade do Estado, essa já foi enterrada faz tempo.
É o teatro do absurdo em sessão permanente. Um Parlamento constitucional funcionando como púlpito, um mandato eletivo operando como testemunho religioso, um problema administrativo tratado como batalha espiritual. Não é só crença pessoal; é instrumentação política da fé, com carimbo oficial e ar-condicionado.
Num Estado laico, o máximo que se pode investigar ali é quem cavou o buraco e por quê. Mas, na versão teocrática soft, o que se investiga é se houve macumba, despacho, mandinga, olho-gordo institucional. Falta pouco para convocarem CPI do Encosto, com relator ungido e parecer em línguas.
O mais fascinante não é o objeto, é o roteiro: mistério, perseguição, forças ocultas, inimigos invisíveis. Tudo muito conveniente quando a política vira guerra santa e o adversário vira demônio.
Estado laico não é Estado ateu, é Estado adulto. O que estamos vendo é o oposto: religião usada como espetáculo, medo como método, nonsense como narrativa pública.
Por: Júlio Benchimol Pinto

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