O Racismo na Bíblia à Luz da História da Esposa de Moisés
A Bíblia não ignora a realidade do preconceito e da discriminação entre os seres humanos. Embora o termo moderno racismo não apareça explicitamente nas Escrituras, diversas narrativas bíblicas revelam atitudes de rejeição baseadas em etnia, origem ou diferença cultural. Um dos textos mais significativos sobre esse tema encontra-se em Números 12:1–10, na história da esposa cuxita de Moisés.
O texto bíblico afirma que Miriã e Arão falaram contra Moisés “por causa da mulher cuxita que ele havia tomado” (Nm 12:1). O termo cuxita refere-se à região de Cuxe, localizada ao sul do Egito. Na Bíblia, Cuxe aparece em Gênesis 10:6 como descendente de Cam e é repetidamente associado ao continente africano (Sl 68:31; Is 18:1; Jr 13:23). Cuxe era conhecido por sua identidade distinta entre as nações, tanto geográfica quanto etnicamente.
O profeta Jeremias faz uma referência clara à identidade dos cuxitas ao perguntar:
“Pode o etíope (cuxita) mudar a sua pele?” (Jr 13:23).
Esse texto mostra que a cor da pele dos cuxitas era visivelmente diferente e socialmente reconhecida. Importante destacar que essa referência não é negativa em si, mas descritiva, usada pelo profeta como metáfora para falar da dificuldade de mudança de comportamento humano. O texto bíblico, portanto, reconhece a diversidade étnica sem a condenar.
Historicamente, a região de Cuxe incluía áreas como a Núbia (antigo Sudão), o Reino de Meroé e a Etiópia antiga (Axum), civilizações africanas avançadas, com estruturas políticas, culturais e religiosas próprias. Assim, quando a Bíblia se refere a uma “mulher cuxita”, está a mencionar uma mulher africana, pertencente a um povo historicamente identificado como de pele escura.
A resposta de Deus à crítica de Miriã e Arão é teologicamente decisiva. Em vez de repreender Moisés por seu casamento, o Senhor chama os acusadores, defende Moisés e disciplina Miriã, que é ferida com lepra (Nm 12:9–10). Essa inversão é fundamental: o julgamento divino recai sobre quem discrimina, não sobre quem é alvo da discriminação. O texto deixa claro que o preconceito é incompatível com o caráter de Deus e com a liderança escolhida por Ele.
Essa narrativa ensina que o racismo não é apenas um problema social, mas um pecado espiritual, pois questiona a soberania de Deus em escolher, chamar e abençoar pessoas independentemente da sua origem. Ao defender Moisés e sua esposa cuxita, Deus afirma que a dignidade humana não é definida por etnia, cor da pele ou nacionalidade, mas pela relação com Ele.
Portanto, a história da esposa de Moisés revela que a Bíblia não legitima o racismo; ao contrário, ela o confronta. Desde o Antigo Testamento, Deus se posiciona contra atitudes de exclusão e chama o seu povo a viver segundo uma ética de justiça, respeito e acolhimento. Essa mensagem continua profundamente relevante, desafiando a Igreja hoje a rejeitar toda forma de racismo e a refletir o amor inclusivo de Deus no mundo.
Perfeito Massamba

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