“O trabalhador é digno do seu salário” (Lucas 10:7). Sim, mas você entendeu errado!
Esse é um dos textos mais usados para justificar a profissionalização do púlpito, a cobrança por pregações e até ingressos caros para eventos supostamente espirituais. O argumento parece simples: se o trabalhador é digno do seu salário, então o pregador ou palestrante podem cobrar ou estabelecer valores de ingresso em suas atividades.
Mas… será que foi isso que Jesus quis dizer? E se você me acompanha nesse quadro, então já sabes que vamos ponto a ponto. Vamos a isso:
1. O que Jesus realmente disse
A frase aparece em dois momentos do ministério de Jesus:
Primeiro: Lucas 10:7 – “Ficai na mesma casa, comendo e bebendo do que eles tiverem, pois digno é o trabalhador do seu salário.”
E também em Mateus 10:10 – “O trabalhador é digno do seu alimento.”
Jesus envia os discípulos em missão. Ele não os autoriza a cobrar pelas mensagens. Pelo contrário, dá uma instrução clara: “De graça recebestes, de graça dai.” (Mateus 10:8). O ensino do evangelho não era um serviço comercial. Os discípulos deveriam confiar na hospitalidade daqueles que os recebessem e não transformar o ministério em negócio.
O “salário” ali não é cachê, ingresso ou honorário de conferência. É sustento básico, oferecido espontaneamente (isso aqui é muito importante) por quem foi abençoado pelo ministério.
2. O modelo de Jesus: ministério sem cobrança
Jesus nunca cobrou para ensinar, curar ou libertar. Ele não estabeleceu taxas, não vendeu acesso à sua mensagem e nunca cobrou ingressos para as pessoas o assistirem.
Quando enviou os discípulos, a lógica foi a mesma: a) Sem bolsa; b) Sem ouro; c) Sem prata; d) Sem cobrança. E porquê disso? Porque a provisão viria como fruto da comunhão, não como pagamento por serviços espirituais.
3. O ensino apostólico: sustento, não comércio
O apóstolo Paulo cita diretamente esse ensino de Jesus, provavelmente citando diretamente Lucas:
1 Timóteo 5:17–18 : “Digno é o trabalhador do seu salário.”
Mas o próprio Paulo explica como aplicava esse princípio: em Atos 20:33–35 ele diz que trabalhou com as próprias mãos para não ser pesado a ninguém. Em 1 Coríntios 9:12 ele diz que “não usamos desse direito; antes, suportamos tudo para não criarmos obstáculo ao evangelho.” Ou seja: O sustento ministerial é legítimo. Mas o evangelho não pode virar produto e o ministro não deve agir como um profissional de palco.
4. O problema moderno: o púlpito virou mercado
Hoje vemos: Pregadores com cachês fixos, contratos antes de aceitar convites, conferências com ingressos caríssimos e inacessíveis para a maioria da população, zonas “VIP”(sim, eu sei que é surreal), pastores com tabela de honorários, etc…
Isso está muito mais próximo de: shows, palestras corporativas, entretenimento religioso e o bom e velho EMPREENDEDORISMO DE PALCO (eu sei que aqui muitos ficam magoados) do que do modelo bíblico.
O princípio de Jesus era: O ministro vive do evangelho, mas não vende o evangelho.
5. A diferença entre sustento e comércio
Sustento bíblico é:
- Espontâneo;
- Proporcional;
- Sem exigência;
- Sem negociação;
- Sem transformar o evangelho em produto.
Já o comércio espiritual envolve:
- Cachês definidos;
- Ingressos caros;
- Condições financeiras para ministrar;
- Evangelho tratado como serviço pago.
- Preferência para locais caros e glamurosos
Meus caros, uma coisa é sustento digno, outra coisa é mercantilização do sagrado e aqui caímos no nosso penúltimo ponto.
6. A quem a Bíblia manda sustentar?
Os textos sobre sustento ministerial não falam de celebridades religiosas ou conferencistas ocasionais. Eles se referem fundamentalmente àqueles que cuidam do rebanho de forma contínua.
Vejamos:
1 Timóteo 5:17: “Os presbíteros que presidem bem sejam considerados dignos de duplicada honra, especialmente os que se afadigam na palavra e no ensino.”
Aqui Paulo fala de presbíteros locais, líderes que:
- Governam a igreja;
- Ensinam regularmente;
- Acompanham as ovelhas.
1 Tessalonicenses 5:12–13: “Reconhecei os que trabalham entre vós, e os que vos presidem no Senhor, e vos admoestam.”
Novamente, não são pregadores visitantes, mas aqueles que:
- Trabalham entre o povo;
- Vivem com o povo;
- Cuidam das almas.
O mesmo se aplica a missionários que:
- Dedicam a vida ao evangelho;
- Vivem no campo missionário;
- Dependem do sustento da igreja.
O padrão bíblico é claro: A igreja sustenta aqueles que cuidam dela, não aqueles que apenas passam por ela. Claro que um convidado pode receber uma ajuda, oferta ou honra. Mas é totalmente diferente de cobrar cachê, impor valores ou transformar o convite em contrato comercial.
7. O perigo espiritual: Quando o púlpito vira fonte de lucro.
O pregador vira celebridade, o evangelho vira produto, o púlpito se torna palco e caminha-se para a apostasia plena. Pedro já havia advertido dizendo: “Movidos por avareza, farão comércio de vós com palavras fingidas” (2 Pedro 2:3)
Conclusão:
Lógico que o trabalhador é digno do seu salário, mas quem usa isso pra defender tudo aquilo que é contrário ao espírito do evangelho, então já caiu da graça há muito tempo. Na Bíblia, o ministro pode ser sustentado, especialmente aquele que cuida das almas continuamente, mas o evangelho nunca é vendido sob o pretexto de “cobrir os custos da atividade”.
- Hugo Jordão

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