quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

"LÍNGUAS ESTRANHAS" A EXPRESSÃO QUE NÃO EXISTE

 



“LÍNGUAS ESTRANHAS”, A EXPRESSÃO QUE NÃO EXISTE. (Série 2/6)

2. Definindo a palavra "língua" no contexto do Novo Testamento

 

Antes de qualquer estudo, é fundamental a definição dos termos, ou palavras, que serão abordados, bem como um claro entendimento das circunstâncias em que estes termos são utilizados e o seu significado dentro de cada contexto específico. Assim, torna-se absoluta prioridade estudarmos o termo "língua", ou o seu plural, "línguas", em cada uma de suas ocorrências no Novo Testamento, tendo como base de estudo o seu significado na língua original em que foi escrito o Novo Testamento: o grego koiné. Existem algumas palavras gregas, no Novo Testamento, que foram traduzidas para o português como "língua". No original (grego), essa expressão “línguas estranhas” não existe – foi um erro de tradução que gerou um gigantesco erro doutrinário.

 

Neste ponto faz-se mister assinalar e destacar que em nenhum léxico ou dicionário grego, quaisquer das palavras gregas, traduzidas para o português como "línguas", têm o significado de um falar em êxtase ou falar uma língua ou dialeto que não seja inteligível por um povo. Assim, das ocorrências da palavra "língua" ou "línguas", no Novo Testamento, podemos certamente afirmar que, quando esta palavra se refere a uma linguagem, é sempre, invariavelmente, uma língua humana falada e entendida por algum povo.


Também é importante registrar que a palavra portuguesa "glossolalia" utilizada para representar a prática atual do "falar em línguas", tão comum em meios pentecostais e neopentecostais, tem o seguinte significado conforme o dicionário Houaiss: 


a) Suposta capacidade de falar línguas desconhecidas quando em transe religioso.

b) Distúrbio de linguagem observado em certos doentes mentais que creem inventar uma linguagem nova.

 

Esta palavra vem de duas palavras gregas: glwssa + lalia (glossa + lalia) que ao pé da letra significam "língua + falar", e que em momento algum aparecem juntas no Novo Testamento.


A palavra (lalia) é encontrada no Novo Testamento em duas passagens:


"Logo depois, aproximando-se os que ali estavam, disseram a Pedro: Verdadeiramente, és também um deles, porque o teu modo de falar o denuncia." (Mateus 26:73)


"Mas ele o negou outra vez. E pouco depois os que ali estavam disseram outra vez a Pedro: Verdadeiramente tu és um deles, porque és também galileu, e tua fala é semelhante." (Marcos 14:70)


E como pode ser observado nos versos acima, não há qualquer conjunção ou combinação da palavra "lalia", em suas ocorrências no Novo Testamento, com a palavra "glossa".


Existe, contudo, uma conjunção da palavra "glossa" que é encontrada, por exemplo, em I Coríntios 14:2, conforme segue:


"Porque o que fala em língua desconhecida não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o entende, e em espírito fala mistérios." (I Coríntios 14:2)


"o gar lalwn glwssh ouk anqrwpoiv lalei alla tw qew oudeiv gar akouei pneumati de lalei musthria" (I Coríntios 14:2)

lalew + glwssa (laleo + glossa) significa ao pé da letra, "falar com uma língua". Esta conjunção apesar de próxima à conjunção de "glossa" + "lalia", não tem a mesma conotação que glossolalia, e não pode ser entendida como se fosse uma ocorrência desta combinação de palavras. Ante estas constatações, podemos com segurança afirmar que não há qualquer ocorrência, no Novo Testamento grego, de glossolalia. Outro ponto importante a se ter em mente é que o Cristianismo não admite "transe religioso" (prática comum em várias religiões pagãs), nossa religião exige entendimento, clareza de raciocínio, discernimento, temperança (moderação, autodomínio), conhecimento e firmeza, conforme pode ser entendido em Marcos 12:30, Romanos 12:1, 1 Cor 2:14-15 e 2 Pedro 1:5-10.


O falar em línguas ocorreu no Novo Testamento em 3 ocasiões: Na descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes conforme Atos 2:4; em Cesaréia na casa de Cornélio conforme Atos 10:46 e após a imposição de mãos de Paulo sobre os 12 discípulos em Éfeso conforme Atos 19:6 

 

Além disto o falar em línguas foi citado na primeira carta do apóstolo Paulo aos Coríntios. 


Em várias outras ocasiões especiais, não houve o falar em línguas, como por exemplo: Quando Jesus soprou o seu Espírito sobre os seus discípulos conforme João 20:21-22; na conversão do Eunuco conforme Atos 8:35-39; na conversão de Paulo mostrado em Atos 9:1-9; após Pedro e João estarem perante o Sinédrio citado em Atos 4:31-33; no Batismo de Lídia conforme Atos 16:13-15 e na conversão do carcereiro e sua casa conforme Atos 16:30-34


O apóstolo Paulo demonstrou que o falar em línguas deve seguir regras específicas e determinadas:


a) É uma atividade secundária, de importância menor e muitas vezes indesejável: I Coríntios 14:3 e 14:23

b) Exige a necessidade de intérprete: I Coríntios 14:27

c) Caso não haja intérprete, não deve haver o falar em línguas: I Coríntios 14:28

d) Somente dois, quando muito três podem falar em línguas: I Coríntios 14:27

e) Somente um pode falar por vez: I Coríntios 14:27 e 14:30

f) Não deve haver confusão: I Coríntios 14:33

g) Tudo deve ser feito com ordem e decência: I Coríntios 14:40

h) As línguas não devem ser buscadas (Deus é quem decide): I Coríntios 12:18 


- Walter Andrade Campelo

Postado por #VitorFialho (#PuritanoReformado)


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