Chegou a hora de encarar uma realidade que o Brasil empurra para debaixo do tapete há décadas. É preciso abrir a caixa-preta de parte das igrejas neopentecostais que transformaram a fé em mercadoria, a miséria em oportunidade de negócio e o medo em instrumento de controle.
Durante anos, essas instituições se especializaram em explorar a pobreza, o desespero e a esperança de milhões de brasileiros. Gente que mal consegue pagar aluguel ou colocar comida na mesa é pressionada a “plantar” dinheiro em troca de milagres, curas, prosperidade e proteção divina. O resultado não é espiritualidade — é transferência sistemática de renda dos mais pobres para líderes milionários, cercados de luxo, mansões, jatinhos, carros importados e relógios caros.
Isso não é religião no sentido histórico, cultural ou simbólico. Não há teologia consistente, liturgia, tradição ou reflexão espiritual profunda. O que existe é um modelo de negócios altamente eficiente, sustentado por técnicas sofisticadas de manipulação psicológica: culpa permanente, medo do inferno, demonização da pobreza, promessa de enriquecimento rápido e a ideia de que qualquer fracasso pessoal é culpa da falta de doação.
ESPETÁCULO, ENCENAÇÃO E MANIPULAÇÃO
Multiplicam-se relatos de encenações grotescas: supostas curas, milagres fabricados, “libertações” teatrais e exorcismos coreografados. Tudo cuidadosamente calculado para emocionar, chocar e convencer o público a doar mais. O culto vira espetáculo. A fé vira produto. O fiel vira cliente.
As pregações, em muitos casos, se resumem a uma mistura de autoajuda rasa com cobrança financeira agressiva, cujo único objetivo é formar “dizimistas produtivos”, que paguem em dia e sem questionar. Não se trata de salvação espiritual, mas de fluxo de caixa.
É um negócio extremamente lucrativo. Um dos mais lucrativos do país.
MORAL EM PÚBLICO, PODRIDÃO NOS BASTIDORES
Em público, esses líderes discursam sobre moral, família e bons costumes. Nos bastidores, porém, há denúncias recorrentes de abusos, exploração sexual, relações abusivas e hipocrisia estrutural. Casos envolvendo fiéis vulneráveis, inclusive mulheres casadas e jovens, aparecem com frequência em investigações, reportagens e processos judiciais.
Há ainda um teatro permanente de “família exemplar”, enquanto práticas privadas contradizem completamente o discurso público. A moral serve apenas como instrumento de controle sobre os fiéis — nunca como limite para quem está no topo da hierarquia.
DINHEIRO SEM ROSTO, SEM ORIGEM E SEM DESTINO
Esse sistema não sobrevive apenas de doações “voluntárias”. Crescem os indícios de lavagem de dinheiro, inclusive recursos oriundos de atividades ilícitas, aproveitando-se da quase inexistente fiscalização. Igrejas não são obrigadas a prestar contas detalhadas, não pagam impostos e operam como empresas blindadas, protegidas por brechas legais e influência política.
O país assiste à proliferação de CNPJs religiosos como franquias, enquanto escolas fecham, postos de saúde carecem de recursos e políticas públicas definham. Bilhões circulam fora de qualquer controle efetivo.
A BLINDAGEM POLÍTICA
Para manter esse modelo, construiu-se uma poderosa bancada evangélica no Congresso Nacional. Não se trata de representação da fé popular, mas de um consórcio de interesses privados, dedicado a preservar isenções fiscais, bloquear investigações e garantir privilégios.
Essa bancada opera sob o guarda-chuva ideológico do bolsonarismo e da extrema direita, instrumentalizando a religião para justificar autoritarismo, intolerância e até violência internacional. Invocam passagens do Antigo Testamento para legitimar atrocidades, defender políticas de morte e normalizar discursos que nada têm a ver com amor ao próximo ou justiça social.
CHEGA
O Brasil não aguenta mais essa roubalheira travestida de religião, essa fraude institucionalizada que se alimenta da ignorância, do medo e da impunidade. Fé não pode ser salvo-conduto para crime. Crença não pode servir de escudo contra a lei.
Nenhuma instituição deveria estar acima do Estado democrático de direito — muito menos uma que movimenta bilhões.
Se é religião de verdade, que preste contas.
Se funciona como empresa, que pague impostos.
Se comete crimes, que responda por eles.
É hora de acabar com essa farra.
De tratar esse “mercado da fé” como o que ele é: um dos negócios mais lucrativos e menos fiscalizados do país, sustentado à custa da pobreza, da desinformação e da exploração.
Religião não é isso.
E o Brasil não pode mais fingir que é.

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