sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O EVANGELHO SEGUNDO O PASTOR CLÁUDIO DUARTE: ENTRE O RISO CONVENIENTE E A CONDENAÇÃO AO XANDÃO




Neste primeiro de janeiro, dei de cara com uma publicação do Gospel Mais Brasil ressuscitando o Pastor Cláudio Duarte — o bolsonarista raiz que nunca foi embora, só mudou o tom. Confesso: até gosto do jeito como ele prega. O humor é afiado, o tempo de palco é bom, a comunicação flui. O problema não é a piada. O problema é o que ela esconde. Porque há um tipo de riso que não alivia: distrai enquanto o estrago acontece.


Cláudio Duarte reaparece nas redes como quem retorna a um palco familiar, já sabendo onde a plateia vai rir. A fórmula é simples e eficiente: uma piada aqui, um versículo ali, um inimigo político bem escolhido — e pronto. O evangelho vira entretenimento moral para consumo rápido, desses que não deixam marcas, nem perguntas incômodas.


Dessa vez, o escolhido foi Alexandre de Moraes, escalado para o papel de Saulo de Tarso antes da conversão. Um recurso dramático antigo, quase preguiçoso, mas sempre útil para quem prefere apontar o “pecador” longe do espelho. O alvo muda, a técnica é a mesma: personaliza o mal, santifica a plateia.


O pastor diz que não se deve desejar a morte de ninguém. Excelente. Cristão. Pena que essa teologia da paz tenha surgido depois que o ódio deixou de ser eleitoralmente rentável. Onde estava esse zelo quando bolsonaristas oravam com pneus para Lula morrer? Quando a morte virou linguagem política ungida, transmitida ao vivo e aplaudida? Ali, o silêncio foi pastoral — estratégico, conveniente, cúmplice.


Cláudio Duarte chama esse desejo de morte de “vodu”. Curioso. Porque durante quatro anos, o ódio vestiu terno, falou em nome de Deus, subiu em púlpitos e foi celebrado em congressos evangélicos. Não era vudu. Era projeto. Projeto político, ideológico e religioso, apoiado, defendido e normalizado por líderes que hoje fingem surpresa com o monstro que ajudaram a alimentar.


O pastor-humorista adora posar de moderado. Não grita como Malafaia, não espuma raiva — ele ri. E é exatamente aí que mora o perigo. O riso funciona como anestesia moral: quando o fiel percebe, já concordou. É o mesmo alinhamento político explícito, só que embalado para parecer espiritualidade madura.


Quando o assunto aperta, Duarte sempre encontra uma saída técnica. Foi assim com a maçonaria: palestrou na Assembleia Geral da Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil, causou revolta entre evangélicos e depois explicou que “não é maçom”, apenas prestava um serviço à comunidade. Serviço gratuito, claro — porque nada é mais evangélico do que circular em espaços de poder jurando que não tem nada a ver com poder.


Politicamente, nunca ocupou cargo, mas sempre ocupou lado. Alinhado a Jair Bolsonaro, afinado com Silas Malafaia e confortável no evangelismo do “toma lá, dá cá”, ajudou a legitimar um projeto que flertou com autoritarismo enquanto pregava moral seletiva. Agora tenta posar de bom cristão ponderado, pedindo oração onde antes houve aplauso.


E há ainda o pacote completo: suas falas sobre casamento, sexualidade e o papel da mulher — sempre conservadoras, sempre ultrapassadas, sempre blindadas pelo argumento de que são “bíblicas”. O humor entra como escudo: quem critica “não sabe brincar”; quem discorda “não aceita a Palavra”. É uma defesa perfeita contra qualquer debate sério.


Cláudio Duarte não é ingênuo. É um comunicador experiente que sabe usa o evangelho, sabe exatamente onde pisa, para quem fala e até onde pode ir. Ele não rompe com a extrema-direita evangélica — ele a torna palatável. Troca o grito pela gargalhada, o ataque direto pela insinuação bíblica, o ódio explícito pela oração estratégica com pintada de humor carioca. 


No fim, o evangelho que sobra não confronta o poder, não defende os vulneráveis, não ameaça estruturas. Serve para manter tudo como está, enquanto o pastor segue ativo, requisitado e celebrado como “voz equilibrada”.


Mas equilíbrio sem memória é só conveniência.


Deixa a eleição começar para valer. Deixa o passado reaparecer sem filtro e sem trilha sonora. Porque quando o riso acaba, o púlpito vira tribunal. E aí, nem piada, nem versículo mal recortado conseguem esconder a verdade: não foi só humor — foi escolha.


Por: PASQUIM CUIABANO JOÃO GUATO

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