Vi este comentário em uma publicação qualquer sobre África:
"África é pobre porque, de um modo geral, não segue preceitos cristãos. Os países mais prósperos são cristãos. África só andará para frente quando adotar valores cristãos."
Quando li aquilo, lembrei imediatamente de uma conversa que tive com meu irmão há alguns anos.
Apesar de termos crescido numa família cristã, ele sempre foi uma pessoa que questionava tudo.
Tudo mesmo.
Ele não aceitava respostas prontas.
Não aceitava argumentos baseados apenas na tradição.
E um dia ele me fez uma pergunta que ficou gravada na minha memória.
Ele disse:
"Se os nossos deuses foram incapazes de impedir a escravidão, a colonização, os massacres e a humilhação de milhões de pessoas, por que deveriam ser adorados?"
Depois ficou em silêncio por alguns segundos.
E então continuou:
"Mas se Deus ama todos os povos da mesma forma, por que tantos impérios invocaram o Seu nome enquanto escravizavam, colonizavam e desumanizavam outros seres humanos? E se Deus não escolheu um lado, por que tanta gente insiste em apresentar a história como se tivesse escolhido?"
Na época, confesso que não soube responder.
Porque a pergunta dele não era apenas sobre religião.
Era sobre justiça.
Era sobre humanidade.
Era sobre a forma como muitas vezes usamos Deus para explicar aquilo que foi feito pelos homens.
A verdade é que a escravidão não foi criada por uma religião.
A colonização não foi criada por uma religião.
O racismo não foi criado por uma religião.
Foram escolhas humanas.
Foram decisões humanas.
Foram sistemas criados, sustentados e defendidos por seres humanos.
Ao longo da história, diferentes povos invocaram diferentes deuses para justificar guerras, conquistas, invasões e dominação.
Mas nenhuma corrente foi colocada por um anjo.
Nenhum navio negreiro foi construído por um espírito.
Nenhuma colônia foi criada por intervenção divina.
Foram homens.
Homens que fizeram escolhas.
Homens que lucraram.
Homens que decidiram que alguns seres humanos valiam mais do que outros.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja qual religião tornou um país rico ou pobre.
Talvez a pergunta seja outra:
Como sociedades que se consideravam profundamente religiosas conseguiram conviver durante séculos com a escravidão, a segregação e a exploração de outros povos?
Porque a riqueza de uma nação não prova a superioridade da sua fé.
E a pobreza de um povo não prova a inferioridade da sua cultura.
A história é muito mais complexa do que isso.
E talvez o erro mais perigoso seja usar Deus para absolver aquilo que foi responsabilidade dos homens.
No fim daquela conversa, meu irmão disse algo que nunca esqueci:
"Talvez Deus não seja o problema. Talvez o problema seja aquilo que os homens fazem em nome de Deus."
E quanto mais eu estudo a história, mais percebo que essa frase continua atual.
Porque antes de perguntar qual religião é superior...
talvez devêssemos perguntar quem escreveu a história.
Quem acumulou riqueza.
Quem perdeu a liberdade.
Quem foi silenciado.
E quem ainda hoje tenta convencer os outros de que a pobreza de um povo é consequência da sua fé, e não das feridas deixadas por séculos de exploração.
Porque a verdadeira fé deveria aproximar as pessoas da justiça.
Nunca servir de argumento para justificar desigualdades.
E talvez a reflexão mais importante seja esta:
Não foi Deus que colocou correntes nos pés de ninguém.
Foram homens.
E enquanto não tivermos coragem de encarar essa verdade, continuaremos confundindo fé com poder, e espiritualidade com dominação.
Fonte: Atlântico Negro

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