**Por João Guató -
Comparando a dor silenciosa da ditadura com o chororô fotogênico permitido pela democracia.
Há ensinamentos que a história entrega com sutileza; outros, com estardalhaço. E há aqueles que ela nos esfrega na cara, como quem diz: “Meu filho, não force. É só olhar.” O curioso é que, mesmo assim, tem gente que fecha os olhos com a mesma convicção de quem acredita que a Terra é plana, mas só no hemisfério de Brasília.
Pensemos em Eunice Paiva. Ela atravessou o país, o tempo e o silêncio atrás de um marido que a ditadura arrancou de sua casa como quem puxa uma tomada da parede: brusco, impessoal, sem explicação — e, sobretudo, sem devolução. Eunice buscou um rosto, um corpo, uma pista… encontrou uma ausência. A ditadura tem dessas delicadezas: não devolve nem o aperto de mão.
Corta para Michelle Bolsonaro. Boné branco, expressão calibrada, choro técnico digno de novela das nove. O marido também foi preso — eis a coincidência — mas aí começa o descompasso histórico. Na democracia, ela foi visitá-lo no dia seguinte, com direito a escolta, câmeras, registro oficial e talvez até um “força, meu amor” estrategicamente sussurrado para o efeito sonoro.
Enquanto Eunice buscou por décadas sem achar, Michelle buscou por vinte e quatro horas e encontrou. O que separa essas duas jornadas não é só o tempo. É o regime. É a luz. É a simples diferença entre um Estado que engole pessoas e outro que apenas as guarda por um tempo — com recibo, protocolo e horário de visita.
Mas tente explicar isso aos devotos do Bolsonaro. Eles falam da ditadura como quem fala de um amor de infância que nunca existiu: “Ah, mas naquela época era tudo organizado.” Era sim: organizado para desaparecer gente. Organizado para que Eunice Paiva jamais tivesse sequer o direito de se despedir.
É por isso que a imagem dessas duas mulheres, colocadas lado a lado, vale por mil discursos. De um lado, a dor silenciosa imposta por um regime que proibia até a última pergunta. Do outro, o chororô fotogênico permitido por uma democracia que, veja só, permite até que falem mal dela.
E para completar esse desfile de contradições, ainda aparecem — com a convicção típica de quem estudou História numa figurinha de WhatsApp — os militantes da saudade autoritária gritando pela volta da ditadura militar. Esses mesmos que, ironicamente, só podem gritar isso porque… *a democracia deixa.
Aí, quando o STF aplica a lei, investigando quem tentou brincar de golpe como se fosse festa junina fora de época, eles têm a pachorra de berrar:
“Ditadura do STF!”
Ditadura onde, meu filho?
Naquela mesma instituição onde ministro vota, diverge, discorda, debate e publica decisão para todo mundo ler?
Ditadura é o que levou Eunice Paiva a procurar o marido por décadas sem nunca receber uma resposta — nem viva, nem morta.
Se isso aqui fosse ditadura de verdade, o máximo que vocês teriam hoje seria o silêncio… e talvez uma caminhonete preta na porta, sem placa, sem live, sem hashtag.
Mas não: vocês têm celular, internet, rede social, advogado, habeas corpus e ainda a ousadia de fazer cosplay de perseguido político com camisa da seleção e milkshake na mão.
É por isso que eu digo:
sonham com a ditadura como quem sonha com um parque de diversões — porque nunca tiveram de pagar o ingresso da tragédia.
E como a história é teimosa, segue ensinando:
ditadura é quando até o choro é proibido;
democracia é quando até quem delira tem direito a voz.
E mesmo assim… eles reclamam.
Aí já não é só falta de noção —
é alucinação cívica em grau avançado.
E no fim das contas, a pergunta que fica é simples, quase infantil:
Se democracia e ditadura são “a mesma coisa”, por que Eunice perdeu o marido para sempre, enquanto Michelle o encontrou na manhã seguinte?
Mas aí, meus caros, já entramos no terreno arenoso da lógica — esse solo que tantos evitam pisar para não deslizar nas próprias certezas.
E assim a história, paciente e sarcástica, continua ensinando:
há quem não aprenda porque não sabe; e há quem não aprenda porque não quer.
Fonte: Pasquim Cuiabano João Guato

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