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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Quando a notícia vira produto de algoritmo, o jornalismo morre?

 

                   Caminhamos para um futuro desprovido daquilo que um dia definiu o jornalismo: a mediação humana | Foto: reprodução    



João Reynol


Permitir que o jornalismo definhe ao mandos das IAs não é apenas uma perda de mercado, mas transferir a mediação da “verdade” para sistemas opacos.

Dizer que as inteligências artificiais de geração de texto, como a Gemini e o ChatGPT, podem se tornar o cemitério do jornalismo como o conhecemos não é hipérbole e nem alarmismo. É um diagnóstico baseado em tendências recentes de mercado, que apontam para um futuro onde o conteúdo se torna cada vez mais abundante e, ao mesmo tempo, cada vez mais desprovido daquilo que um dia definiu o jornalismo: a mediação humana.

Não se trata de atacar profissionais que utilizam IAs para revisão de texto ou apoio na checagem de dados. O problema reside na forma como esses sistemas são treinados e operam pela alimentação de conteúdos produzidos por veículos jornalísticos e, em muitos casos, os reproduzem sem autorização ou qualquer tipo de remuneração.

Outro fenômeno agrava este cenário e representa um risco existencial à profissão: a desmocratização do acesso à informação. Avanços recentes, como o AI Overview, do Gemini, oferecem respostas completas diretamente ao usuário de informações coletadas destes mesmos portais de notícia. Essa ferramenta reduz o incentivo para o indivíduo acessar a fonte original e cria o comportamento conhecido como zero-click, já associado à queda de tráfego em sites jornalísticos — estimada em cerca de 20% em alguns mercados.

No Brasil, uma investigação aberta pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), pela provocação da sociedade civil, busca apurar se essas práticas configuram abuso de poder econômico ou condutas anticoncorrenciais. Ainda não há clareza sobre quais medidas poderão ser adotadas.

Ainda assim, qualquer regulação tende a ser preferível à inércia. Deixar o chamado “quarto poder” (como disse o político, Edmund Burke) subordinado a algoritmos corporativos, cuja lógica central é a maximização de lucro, representa um risco estrutural para a democracia informacional.

Permitir que o jornalismo definhe ao mandos das IAs não é apenas uma perda de mercado. É abrir mão da apuração dos fatos e transferir a mediação da “verdade” para sistemas opacos, controlados por interesses privados e, em última instância, podem precificá-la como qualquer outro produto.


Fonte: Jornal OPÇÃO

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