Em 2007, em Abaetetuba, no Pará, Lidyane Alves, uma adolescente de apenas 15 anos, foi levada para a delegacia depois de ser acusada de furtar objetos da casa onde trabalhava como empregada doméstica.
Mas, em vez de ser protegida, Lidyane acabou entrando em uma sequência de erros que mudaria sua vida para sempre.
A adolescente foi registrada como se tivesse 19 anos. A delegada plantonista Flávia Monteiro assinou o auto de prisão em flagrante considerando que ela era maior de idade.
E então aconteceu o impensável.
Como Abaetetuba não tinha uma unidade adequada para mulheres ou adolescentes, Lidyane foi colocada em uma cela masculina, junto com cerca de 20 homens.
Ela tinha aproximadamente 1,50 m de altura e 40 kg.
Ali, completamente vulnerável, permaneceu por 26 dias. Segundo os relatos que vieram à tona, durante esse período ela sofreu agressões, ameaças e abusos repetidos.
E ninguém parecia perceber o que estava acontecendo.
Até que um dos presos deixou a cadeia. Em vez de levar aquele segredo consigo, ele decidiu denunciar o que havia acontecido com a menina.
A denúncia chegou ao Conselho Tutelar. Uma conselheira foi atrás da documentação e encontrou a informação que deveria ter sido descoberta antes mesmo de Lidyane entrar naquela cela:
ela tinha 15 anos.
A partir daí, o caso explodiu nacionalmente e revelou uma sucessão de falhas envolvendo policiais, servidores do sistema prisional e autoridades que deveriam fiscalizar aquela unidade.
Entre os nomes questionados estava o da juíza Clarice Maria de Andrade. Segundo as apurações da época, ela tinha conhecimento de que a cidade não possuía estrutura adequada para custodiar mulheres, mas Lidyane permaneceu na unidade masculina.
A magistrada acabou sendo punida administrativamente pelo Conselho Nacional de Justiça, ficando dois anos afastada da função, embora continuasse recebendo salário — que na época era de aproximadamente R$ 35 mil por mês.
Ao todo, 12 pessoas foram indiciadas em decorrência das irregularidades investigadas.
Mas o processo contra os responsáveis não apagaria o que aconteceu com Lidyane.
Anos depois, ela relatou as marcas psicológicas deixadas pelo período de cárcere e enfrentou graves dificuldades emocionais. Segundo os relatos sobre sua vida posterior, acabou também envolvida com drogas e prostituição.
Uma acusação de furto colocou uma adolescente dentro de uma delegacia. Uma sucessão de negligências colocou aquela menina em uma cela masculina.
E foi preciso que um dos próprios presos saísse da cadeia e decidisse falar para que o Brasil descobrisse que, durante 26 dias, uma menina de 15 anos havia sido deixada completamente à mercê de um ambiente onde jamais deveria ter sido colocada.
O caso de Lidyane não ficou marcado apenas pelo crime. Ficou marcado pelo fato de que, quando ela mais precisava ser protegida, o próprio sistema que deveria protegê-la falhou.

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