Passou anos no subsolo para chegar até aqui. Tem cinco semanas. Está cantando para encontrar um parceiro antes de morrer.
Não come as suas plantas. Não pica. Não transmite nada.
A cigarra que você escuta nas tardes brasileiras é um dos insetos mais antigos que existem — cigarras cantam neste mundo há dezenas de milhões de anos.
As ninfas aeram o solo enquanto crescem alimentando-se de seiva das raízes — passam de um ano a mais de uma década no subsolo dependendo da espécie. A casca vazia que você encontra nos troncos — a exúvia — é sinal de que o ecossistema do seu jardim está saudável o suficiente para completar esse ciclo.
E canta porque pode: o zumbido que você chama de barulho é um dos aparatos de comunicação acústica mais sofisticados que a evolução produziu em um inseto. Não é uma voz. É um tambor — dois tímbales (membranas nervuradas) na base do abdômen que o músculo contrai e solta centenas de vezes por segundo. O abdômen oco amplifica tudo. Só os machos têm tímbales.
E aqui vai o que quase ninguém sabe: a fauna de cigarras do Brasil é tão pouco estudada que nem sabemos quantas espécies temos. Das cerca de 1.400 espécies conhecidas no mundo, só umas 150 estão registradas por aqui — e vez ou outra uma nova é descrita. O coro que você ouve no fim da tarde ainda tem nomes faltando.
Deixa ela cantar. 🌿

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