Na posse de Nunes Marques no TSE, Brasília produziu uma dessas cenas que parecem escritas por um roteirista bêbado, mas foram apenas organizadas pelo cerimonial.
O ministro indicado por Bolsonaro ao Supremo assumiu o comando da Justiça Eleitoral para 2026 e, diante de Lula, Janja, Michelle Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e demais habitantes do zoológico institucional da República, fez uma defesa enfática das urnas eletrônicas.
Chamou o sistema brasileiro de “patrimônio institucional da democracia” e disse que, na recepção e apuração dos votos, temos o modelo mais avançado do mundo.
Traduzindo para o dialeto do zap: o ministro de Bolsonaro subiu à tribuna para dizer que a urna que Bolsonaro tentou desacreditar funciona.
É quase poesia. Cruel, mas poesia.
Enquanto isso, Michelle Bolsonaro, depois de anos de bolsonarismo tratando Alexandre de Moraes como encarnação do apocalipse, sentou-se perto de Viviane Barci, esposa do ministro. Houve cumprimento, breve interação, pose de civilidade, aquela coreografia em que Brasília finge que a República ainda é uma senhora educada, mesmo quando metade dos convidados passou os últimos anos chutando a mesa.
Nos bastidores, a conversa era outra: dosimetria, STF, golpistas do 8 de janeiro, articulações, resistências internas, pressão da oposição. Paulinho da Força saiu dizendo estar tranquilo. Bolsonarista saiu desconfiado. Moraes saiu Moraes. E Brasília saiu fazendo aquilo que sabe fazer: transformar cada aperto de mão em tratado de paz e cada suspiro em cálculo sucessório.
Nunes Marques agora tenta vender a imagem de pacificador: defensor das urnas, prudente contra abusos, atento à inteligência artificial e à desinformação.
Pode ser o “martelinho de ouro” da institucionalidade. Pode ser o “10% de Bolsonaro no STF” em versão TSE. Mas a cena de ontem já rendeu uma verdade deliciosa: até o ministro indicado por Bolsonaro precisou defender, em público, o sistema eleitoral que o bolsonarismo tentou destruir.

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