Essa pastora viraliza dentro de um evento como o Congresso dos Gideões, um espaço historicamente comprometido com teologia conservadora, disciplinamento moral e manutenção da hierarquia de gênero, dizendo algo que, isoladamente, soa quase subversivo: “mulheres, parem de orar por homens abusadores, denunciem, saiam de perto deles” e tals. Parece lindo, a internet pira!
Páginas, perfis de esquerda compartilhando, eufóricos...
Mas sem ligar pontos imprescindíveis.
Porque se ligassem, desmontava-se a ilusão.
A pastora Helena Raquel é alinhada, direta ou indiretamente, com figuras como Jair Bolsonaro e toda família, Nikolas Ferreira e Damares Alves, só pra começar. Ela segue nas redes sociais todas as figurinhas gosmentas da extrema-direita evangélica. Esse é o universo dela. É só irem nas redes sociais dela confirmar.
Ela não teria tanto espaço num congresso como os Gideões se esse não fosse o perfil dela. Quem é ou foi crente sabe.
Isso já diz tudo.
Mas aí vocês podem argumentar que isso "não é nada de mais"...
Será heim meu povo?
Será?
Isso não é detalhe, é tudo sobre a estrutura. Essas figuras não apenas representam o conservadorismo evangélico, elas são operadores ativos de um projeto político que REFORÇA O PATRIARCADO e toda sua violência, combate pautas feministas e instrumentaliza a religião para controle social...
E aí?
Como uma pregação daquelas se sustenta diante disso?
Por mais boa vontade que a tal pastora tenha!
Então, vamos parar com a fantasia de que possa ter sido aberta uma "fresta progressista" dentro desse sistema.
Isso não existe!
O cristianismo institucional, ainda mais na sua versão evangélica contemporânea, não é apenas “influenciado” pelo patriarcado...
O patriarcado é um dos seus pilares históricos!
Desde a construção da família nuclear disciplinada, rígida, passando pela sacralização da submissão feminina, até a ideia de autoridade masculina como princípio divino. Isso é a doutrina-base de tudo nesse meio!
Sem conciliação possível, sem negociação.
É impossível que uma única andorinha faça verão diante de uma estrutura hierárquica dominante que é mantida há milênios segundo a suposta "vontade de Deus" - doutrinariamente incontestável!
E aí? Ingenuidade dela...
Ou nossa?
O que essa pastora fez foi somente operar dentro de um limite muito bem definido: ela critica o excesso (a violência explícita), mas preserva a estrutura que produz essa violência. É a mesma lógica de sempre: expõe-se o homem cristão agressor, de fato, mas não se toca no sistema que legitima a autoridade masculina sobre o corpo e a vida da mulher!
E isso tem nome, é gestão de crise!
Porque quando a violência doméstica explode dentro das igrejas, e explodiu faz muito tempo, só que agora SE FALA SOBRE ISSO NA MÍDIA, NAS REDES, então o sistema precisa responder. Não pra se transformar, mas pra se preservar!
Surge então a possibilidade desse tipo de discurso, que é aparentemente emancipador, mas profundamente funcional ao próprio sistema, afinal, foca somente na agência INDIVIDUAL das mulheres.
Entendem?
Ela não está rompendo com o patriarcado. Ela está ajudando a reciclá-lo!
E aí eu te pergunto: o que essa mulher quer?
Bom, existem três possibilidades, e nenhuma é inocente:
▪️Capital POLÍTICO: Esse tipo de fala gera engajamento, visibilidade e projeção. Em um campo dominado por homens, uma mulher que “ousa” criticar abusos ganha destaque imediato, sem necessariamente ameaçar o sistema. É uma posição estratégica.
(E isso ela conseguiu né? E como conseguiu! Até eu que jurei que não ia falar nada sobre esse caso, tô aqui falando desde ontem...
Mas é o jeito!!)
▪️Ilusão reformista: A crença de que é possível “mudar por dentro”. Isso ignora completamente o fato de que instituições estruturadas sobre desigualdade não se auto-dissolvem. Elas ~se adaptam~ pra sobreviver.
▪️Função ideológica consciente ou não: Ela atua como amortecedor. Dá às mulheres a sensação de avanço, enquanto as mantém dentro da mesma engrenagem que as oprime.
E é aqui que o discurso de quem tá criticando, como eu, precisa ser brutalmente honesto: não existe enfrentamento real ao patriarcado dentro de uma estrutura que depende dele pra existir. NÃO EXISTE CRISTIANISMO, ainda mais o cristianismo CONSERVADOR, SEM A OBRIGATÓRIA FUSÃO COM O PATRIARCADO.
Dito isso, é preciso que compreendamos que você não desmonta uma casa permanecendo dentro dela e aceitando suas fundações!
O que está sendo vendido como “coragem”, como "ousadia" é, no máximo, uma reconfiguração controlada do discurso pra evitar o colapso de credibilidade das igrejas diante da violência que elas mesmas se encarregam de sustentar. Em tudo.
Em cada linha da narrativa ideológica bíblica.
Em cada ponto da doutrina-base.
Em cada segmento litúrgico.
Em cada mínimo aspecto do propósito que fundamenta tudo que é pregado e vivido no universo cristão.
Enquanto figuras alinhadas com projetos autoritários, antifeministas e ultraconservadores continuarem sendo referência pras lideranças em geral e pro povão que compõe o rol de membros diretos ou indiretos, qualquer discurso “contra a violência” será limitado, contraditório e, no fundo, funcional ao mesmo sistema que diz combater.
Não é revolução.
E não há nem nunca houve intenção de ser.
Eu sinto muito.
---
Gi Stadnicki

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.