quarta-feira, 11 de março de 2026

MORREU ENFORCADO POR PREGAR O EVANGELHO

 



Em 23 de maio de 1498, por ordem do papa Alexandre VI, o frei dominicano Girolamo Savonarola ia (morto) à fogueira.


Vindo de uma tradicional família de Ferrara, Itália, Girolamo Savonarola nasceu em 21 de setembro de 1452. Entrou para a Ordem Dominicana em 1474, e logo ficou indignado com a corrupção e os excessos da nobreza e da Igreja na Itália renascentista. No convento, passou a relatar suas ideias em tratados filosóficos, inspirado por Aristóteles e São Tomás de Aquino.


Em 1481, foi enviado para pregar em Florença, no centro do Renascimento, onde passou a criticar fortemente a imoralidade da sociedade sob o domínio dos Médici, que mandavam na república desde o início do século 15. Os gastos exorbitantes e as festas suntuosas de Lorenzo de Médici, o Magnífico, despertaram sua ira. O frei estava decidido a combater a corrupção e resgatar o sentido da fé católica, custasse o que custasse. 


No púlpito da igreja de São Marcos, Savonarola profetizava a chegada do juízo final. Os sermões logo passaram a atrair milhares, que se aglomeravam horas antes do início da pregação, ansiosas para ouví-lo condenar o mundo e pregar o Paraíso.


Savonarola implementou novas regras no convento de São Marcos, obrigando todos os frades a levar uma vida sem luxo e ostentação, e formou a Congregação Toscana, com as cidades de Fiesole e Pisa.


Até então, o frei tinha a indiferença do Vaticano. Mas quando, em 1495, passou a declarar que Carlos VIII seria a salvação da Igreja e que Florença devia se aliar ao monarca francês, o papa Alexandre VI, que se opunha à política francesa, o convocou a explicar a suposta origem divina de suas motivações. Saiu de lá com a ordem de não mais pregar. 


Ignorando o pontífice, Savonarola retomou seu trabalho. Proibiu o jogo, a bebida e as festas, e passou a tentar extinguir o que hoje chamamos de Renascença (o nome só surgiu no século seguinte).


Nas fogueiras das vaidades, conduzia a destruição pública de espelhos, acessórios da moda, cosméticos e qualquer objeto que fosse considerado “causador de pecado”, incluindo livros — como Bocaccio e Dante.


Em retaliação, o papa Alexandre VI excomungou Savonarola e desfez a Congregação Toscana, em 1497. A família Médici voltou ao poder e diversos grupos populares se voltaram contra o frei, que perdia sua influência.


Preso e torturado, Savonarola confessou que havia inventado suas visões e profecias. Oficialmente, assim, era um herege. Foi julgado e, junto a seus seguidores Domenico da Pescia e Silvestro Maruffi, condenado à morte. Como padres, lhes foi concedido o direito de serem queimados mortos, não vivos.


Em 23 de maio de 1498, os três foram enforcados e, só então, incinerados na Piazza della Signoria, no centro de Florença.


Uma das figuras mais controversas da história do cristianismo, Savonarola foi, nos anos seguintes à sua morte, considerado um santo pelo povo de Florença. Em 1523, Martinho Lutero deu-lhe o título de mártir e precursor do protestantismo. Para outros, principalmente a partir do Iluminismo, não passou de um impostor, louco e fanático medieval, uma figura se movendo na direção oposta do progresso histórico.

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