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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Partidos não querem mulheres eleitas, querem apenas mulheres suficientes para cumprir a lei

 

                                             Bancada feminina da Câmara dos Deputados em frente ao Congresso Nacional, em Brasília | Foto: Câmara dos Deputados


Por Bruna Ariadne



 Em ano eleitoral, o maior risco para as mulheres não são apenas as fake news ou os ataques virtuais, mas um sistema político que ainda transforma competência feminina em exceção e trata a presença de mulheres nas chapas como obrigação legal, não como um projeto real de compartilhamento de poder.

Há uma narrativa que se repete a cada eleição no Brasil. Presidentes de partidos defendem o fortalecimento da participação feminina, campanhas institucionais exaltam a importância das mulheres na política e discursos em eventos públicos reforçam o compromisso das legendas com a diversidade e a igualdade de oportunidades. No papel, a democracia brasileira parece caminhar para uma representação mais plural. Na prática, entretanto, o poder continua sendo administrado por um clube que muda pouco seus integrantes e menos ainda suas regras.

O problema da sub-representação feminina na política brasileira nunca foi a falta de mulheres dispostas a disputar eleições. Essa explicação, repetida durante décadas, serviu apenas para deslocar a responsabilidade para as próprias mulheres, como se a ausência delas nos espaços de decisão fosse resultado de uma escolha individual e não da forma como o sistema político distribui oportunidades. Hoje, essa justificativa já não se sustenta. Há mulheres preparadas, experientes, com trajetória política, capacidade técnica e inserção social suficientes para ocupar qualquer cargo eletivo. O que continua escasso não são candidatas. São partidos dispostos a investir para que elas vençam.

Essa talvez seja a face mais sofisticada da violência política contemporânea. Ela não se manifesta apenas nos ataques misóginos das redes sociais, nas ameaças dirigidas a parlamentares ou nas campanhas de difamação que tentam destruir reputações femininas. Ela nasce muito antes, quando os partidos decidem quem terá acesso ao fundo eleitoral, quem contará com uma estrutura profissional de campanha, quem será prioridade na propaganda partidária e quem servirá apenas para cumprir uma exigência legal.

A legislação brasileira avançou ao estabelecer cotas mínimas de candidaturas femininas e regras específicas para a destinação de recursos às campanhas de mulheres. Foram conquistas importantes e necessárias. No entanto, nenhuma lei é capaz de alterar, sozinha, uma cultura política construída historicamente para concentrar poder. Os partidos aprenderam rapidamente a cumprir as exigências formais impostas pela Justiça Eleitoral. O que ainda resistem em fazer é dividir, de fato, os espaços onde as decisões são tomadas.

Existe uma diferença fundamental entre cumprir a lei e acreditar nela. Muitos partidos fazem a primeira coisa enquanto evitam cuidadosamente a segunda.

Essa lógica explica por que tantas mulheres entram nas chapas, mas poucas entram na estratégia eleitoral da legenda. São lançadas como candidatas, mas não como prioridade política. Recebem o registro, mas não necessariamente a estrutura. Participam das convenções, aparecem nas fotografias oficiais e integram as peças publicitárias que exaltam diversidade e inclusão. Entretanto, quando as portas se fecham e começam as negociações sobre recursos financeiros, alianças regionais, tempo de televisão e prioridade nas agendas dos principais líderes partidários, a velha lógica da preservação do poder volta a prevalecer.

A política brasileira ainda funciona como um ambiente de reprodução de elites. Não apenas elites econômicas ou familiares, mas também masculinas. O poder é transmitido entre grupos que compartilham relações históricas, redes de influência e interesses comuns. Nesse contexto, cada mulher competitiva representa mais do que uma candidatura. Representa uma redistribuição de poder. E dividir poder nunca foi um movimento espontâneo de quem sempre o controlou.

É justamente por isso que a violência política contra as mulheres não pode ser reduzida às manifestações mais explícitas de misoginia. Quando uma candidata recebe menos recursos que seus colegas homens, apesar de apresentar trajetória semelhante; quando sua campanha é considerada “menos viável” antes mesmo de começar; quando lideranças partidárias desencorajam sua candidatura em nome de acordos internos ou da preservação de espaços tradicionais, também estamos diante de uma forma de violência política. Ela não deixa marcas visíveis, não viraliza nas redes sociais e dificilmente gera manchetes, mas produz efeitos muito mais duradouros porque determina quem terá condições reais de chegar ao poder.

A Nota Técnica do Observatório Nacional da Mulher na Política ajuda a compreender que esse processo continua mesmo depois do registro das candidaturas. Ao analisar as representações sobre mulheres na política produzidas por influenciadores digitais, o estudo demonstra que a presença feminina continua sendo frequentemente enquadrada a partir de questionamentos sobre legitimidade, competência e desempenho, evidenciando que o exercício do poder pelas mulheres permanece submetido a um nível de escrutínio muito superior ao observado entre homens. 

Não é coincidência.

A política brasileira ainda trata liderança feminina como exceção. E tudo aquilo que é tratado como exceção precisa ser constantemente explicado, testado e validado. Homens chegam aos cargos sendo presumidos capazes. Mulheres chegam sendo permanentemente avaliadas para provar que são capazes. Essa diferença altera toda a dinâmica da disputa eleitoral. Enquanto eles são julgados principalmente pelos resultados que entregam, elas frequentemente precisam defender o próprio direito de ocupar aquele espaço.

Há , portanto, uma enorme hipocrisia no discurso institucional sobre participação feminina. Os mesmos partidos que afirmam defender mais mulheres na política continuam reproduzindo estruturas internas nas quais os principais cargos de comando permanecem concentrados nas mãos de homens. Os mesmos dirigentes que discursam sobre igualdade ainda são os responsáveis por decidir quem receberá os maiores investimentos eleitorais. Os mesmos que defendem mais representatividade raramente aceitam abrir mão dos espaços que ocupam há décadas.

A democracia não se fortalece apenas aumentando o número de candidatas registradas. Ela se fortalece quando essas candidaturas recebem condições reais de competir em igualdade de circunstâncias. Qualquer outra lógica transforma mulheres em instrumentos de cumprimento da legislação, e não em protagonistas da vida pública.

Em um ano eleitoral, talvez a pergunta mais importante não seja quantas mulheres disputarão as eleições, mas quantos partidos realmente desejam vê-las vencer. A resposta dificilmente estará nos discursos das convenções, nas campanhas publicitárias ou nas notas oficiais. Ela estará na distribuição do fundo eleitoral, na definição das candidaturas prioritárias, na ocupação das direções partidárias e nas decisões tomadas longe dos holofotes.

Porque, no fundo, o maior obstáculo à participação feminina nunca foi a ausência de mulheres interessadas em fazer política. O verdadeiro obstáculo é um sistema que aprendeu a conviver com mulheres candidatas, desde que elas não alterem a geografia do poder. É um sistema que descobriu como cumprir a lei sem necessariamente cumprir o seu espírito. E enquanto isso continuar acontecendo, a democracia brasileira permanecerá devendo às mulheres muito mais do que representação: continuará lhes negando aquilo que sempre esteve no centro da política — o poder.



Fonte: Jornal OPÇÃO

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