O televangelista Benny Hinn, uma das figuras mais conhecidas e controversas do neopentecostalismo mundial, voltou ao centro de uma crise financeira e judicial nos Estados Unidos. O ministério World Healing Center Church, ligado ao pregador, foi condenado a pagar uma dívida superior a US$ 144 mil à empresa PrintMPro, também conhecida como PrintMailPro, por serviços de marketing e mala direta realizados em 2025.
Convertido para a moeda brasileira, o valor principal da condenação chega a aproximadamente R$ 745 mil, considerando uma cotação próxima de R$ 5,15 por dólar. Mas o impacto pode ser ainda maior. Com juros e custas, a Justiça autorizou o bloqueio de US$ 159.615,85 em contas do ministério mantidas no Frost Bank, em San Antonio, no Texas. Em reais, esse montante ultrapassa R$ 822 mil.
A decisão foi proferida pelo juiz John P. Chupp e representa mais um capítulo na sequência de problemas financeiros envolvendo o ministério de Benny Hinn. Segundo documentos do caso, a empresa prestou serviços entre janeiro e maio de 2025, mas não recebeu os valores acordados.
O episódio não aparece como um fato isolado. Em 2021, o ministério já havia sido alvo de uma ordem judicial para quitar uma dívida de quase US$ 3 milhões com a Mail America Communications. Convertido em reais, esse valor se aproxima de R$ 15,4 milhões. Registros também apontam que, em 2012, os débitos pendentes teriam passado de US$ 5,6 milhões, o equivalente a cerca de R$ 28,8 milhões.
A recorrência dos processos levanta uma pergunta incômoda sobre a estrutura financeira de um ministério que, durante décadas, movimentou multidões, programas de televisão, cruzadas internacionais, campanhas de cura e forte apelo por doações.
Benny Hinn não é apenas mais um televangelista. Ele se tornou uma das maiores vitrines do neopentecostalismo global. Seu nome passou a ser associado a práticas como o chamado “cair no poder”, espetáculos de cura, manifestações emocionais em massa, experiências ligadas à chamada “unção do riso” e à teologia da prosperidade, doutrinas que muitos setores cristãos consideram heréticas por deslocarem o centro do Evangelho da cruz de Cristo para promessas de saúde, dinheiro, êxtase espiritual e sucesso terreno.
Durante anos, Hinn construiu sua imagem em torno de campanhas de milagres, programas televisivos e uma mensagem marcada pela promessa de experiências sobrenaturais. Para seus seguidores, ele foi visto como um homem usado por Deus em curas e sinais. Para seus críticos, tornou-se símbolo de uma geração de pregadores que transformou fé em espetáculo, oferta em semente financeira e sofrimento humano em combustível para arrecadação.
A atual crise também expõe o enfraquecimento de sua máquina midiática. Seu programa, que por anos ocupou espaço em grandes redes cristãs, perdeu a força que já teve em emissoras como TBN e Daystar. Sem a mesma vitrine televisiva que antes ajudava a sustentar o alcance internacional e a captação de doações, o ministério enfrenta agora um cenário muito diferente daquele dos anos de auge.
A Trinity Foundation, organização conhecida por monitorar transparência financeira em entidades religiosas, também levantou suspeitas sobre a forma como ministérios desse tipo administram pagamentos, fornecedores e recursos internos. O caso reacende o debate sobre a falta de prestação de contas em estruturas religiosas milionárias que vivem de contribuições de fiéis, mas operam com pouca transparência pública.
A queda financeira de Benny Hinn tem peso simbólico. Afinal, trata-se de um pregador que por décadas esteve ligado à mensagem de prosperidade, abundância e vitória financeira. Agora, seu próprio ministério aparece em processos por inadimplência, dívidas acumuladas e bloqueio judicial de contas.
A ironia é inevitável.
O homem que pregou para multidões sobre milagres financeiros agora vê sua organização sendo cobrada por empresas, bancos e tribunais. O ministério que ensinou milhares a “semear” esperando colheitas sobrenaturais enfrenta uma colheita bem mais terrena: processos, dívidas e penhoras.
Para muitos cristãos, o caso deveria servir como alerta. O Evangelho bíblico nunca prometeu transformar pregadores em celebridades intocáveis, nem ministérios em impérios sem prestação de contas. Jesus não chamou seus discípulos para venderem milagres, manipularem emoções ou construírem fortunas em nome da fé. Ele chamou homens para tomarem a cruz, negarem a si mesmos e servirem ao Reino com verdade.
Benny Hinn pode continuar sendo defendido por seus admiradores, mas os fatos financeiros colocam seu ministério diante de uma realidade difícil de ignorar. Quando a mensagem de prosperidade começa a ser confrontada por dívidas milionárias, a pergunta deixa de ser apenas contábil. Passa a ser espiritual.
Porque um ministério pode até falar em avivamento, cura e poder. Mas quando fornecedores não recebem, contas são bloqueadas e a Justiça precisa entrar em cena, a retórica da prosperidade perde força diante da realidade dos boletos.
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