A mesa e a cama: quando a comunhão e a intimidade deixam de existir no casamento.
Uma reflexão pastoral sobre a deterioração silenciosa dos relacionamentos conjugais.
Existe uma realidade dentro de muitas famílias cristãs sobre a qual precisamos de falar com mais seriedade: a deterioração dos relacionamentos conjugais dentro dos próprios lares daqueles que frequentam as nossas igrejas.
A imagem apresenta-nos uma expressão bastante interessante: os dois altares dentro de casa: a mesa e a cama.
Embora não sejam altares no sentido litúrgico ou de adoração, podemos utilizá-los como uma metáfora espiritual e relacional para compreender duas dimensões fundamentais da vida matrimonial.
A mesa representa a comunhão, a partilha, o diálogo, a convivência, a participação e a capacidade de os membros da família se encontrarem verdadeiramente.
A cama representa a intimidade, a aliança, a proximidade, a cumplicidade, o carinho e a dimensão afectiva e sexual da relação conjugal.
Quando estas duas dimensões estão saudáveis, existe uma maior possibilidade de o casamento permanecer fortalecido. Mas quando começam a deteriorar-se, o relacionamento entra num processo de fragilização que, muitas vezes, passa despercebido aos olhos dos outros.
1. O ALTAR DA MESA: QUANDO O DIÁLOGO DESAPARECE
Quantos casais vivem debaixo do mesmo tecto, mas já não partilham verdadeiramente a vida?
Sentam-se à mesma mesa, mas não conversam. Comem juntos, mas não se escutam. Partilham a mesma casa, mas já não partilham as preocupações, os sonhos, as dificuldades e as decisões.
Em algumas famílias, a mesa deixou de ser um lugar de encontro e tornou-se apenas um espaço para satisfazer uma necessidade biológica.
Há casais que passam mais tempo a conversar com pessoas nas redes sociais do que com o próprio marido ou esposa. Há quem conheça os problemas dos amigos, mas desconheça o sofrimento de quem dorme ao seu lado.
E o mais preocupante é que, em determinadas situações, os filhos também crescem num ambiente onde os pais já não conseguem conversar, resolver conflitos ou demonstrar afecto.
A mesa deveria ser um espaço de comunhão, mas, para muitos casais, transformou-se num lugar de silêncio, indiferença e distanciamento.
2. O ALTAR DA CAMA: QUANDO A INTIMIDADE DEIXA DE EXISTIR
A cama representa outra dimensão igualmente importante do casamento: a intimidade conjugal.
E aqui precisamos de ter coragem para falar de um assunto que, muitas vezes, é evitado nos nossos púlpitos e nas nossas conversas religiosas.
Existem casais que perderam a intimidade emocional e física. Já não existe carinho, cumplicidade, proximidade ou interesse em compreender as necessidades um do outro.
A intimidade sexual, que deveria ser vivida com amor, respeito, reciprocidade e consentimento, pode tornar-se inexistente ou ser afectada por conflitos não resolvidos, ressentimentos, rejeição, infidelidade e outros problemas.
É importante compreender que a intimidade não começa na cama. Começa na forma como tratamos o nosso cônjuge durante o dia.
É difícil construir proximidade quando existe desprezo, humilhação, indiferença e ausência de diálogo.
Não podemos exigir intimidade onde não cultivamos afecto, nem esperar cumplicidade quando alimentamos continuamente conflitos.
3. MUITAS SEPARAÇÕES COMEÇAM MUITO ANTES DO DIVÓRCIO
Precisamos de compreender que o divórcio, muitas vezes, é o resultado visível de um processo de deterioração que começou muito antes.
Começa quando deixamos de conversar.
Começa quando o orgulho passa a ser maior do que a capacidade de pedir desculpas.
Começa quando os problemas deixam de ser resolvidos e passam a ser acumulados.
Começa quando um dos cônjuges já não encontra no outro um espaço seguro para falar.
Começa quando a indiferença substitui o carinho.
Começa quando a infidelidade encontra espaço numa relação já fragilizada.
Começa quando duas pessoas continuam a viver na mesma casa, mas emocionalmente já construíram vidas separadas.
E, por vezes, tudo isto acontece enquanto o casal continua a frequentar os cultos, participa nas actividades da Igreja, ocupa cargos e transmite aos outros uma imagem de normalidade.
É possível estar presente na Igreja e, ao mesmo tempo, viver uma profunda ausência dentro de casa.
É possível ensinar sobre a família no púlpito e não conseguir cultivar a comunhão na própria família.
É possível aconselhar outros casais e negligenciar os problemas do próprio casamento.
Por isso, precisamos de deixar de olhar apenas para a aparência espiritual das famílias e começar a preocupar-nos também com a sua realidade relacional.
4. QUAL É A RESPONSABILIDADE DA IGREJA?
É precisamente aqui que a reflexão precisa de chegar à Igreja.
Não basta realizar cerimónias matrimoniais, organizar encontros de casais e pregar sobre a importância da família. Precisamos de acompanhar os casais depois do casamento.
Quantas congregações possuem estruturas permanentes de aconselhamento e acompanhamento matrimonial?
Quantos pastores têm equipas preparadas para acompanhar casais em crise?
Quantos departamentos trabalham preventivamente para ajudar os casais a identificar e resolver conflitos antes que estes se transformem em rupturas?
A Igreja precisa de compreender que a família não necessita de acompanhamento apenas quando o divórcio já está à porta.
Precisamos de investir na prevenção, no aconselhamento, na educação conjugal e na restauração das relações, sempre que esta seja possível e segura.
E esse trabalho não deve depender exclusivamente do pastor ou dos diáconos. Deve envolver profissionais qualificados, conselheiros familiares, psicólogos e pessoas devidamente preparadas para lidar com os desafios da vida conjugal.
Também precisamos de garantir discrição e confidencialidade. A intimidade de um casal não pode transformar-se em assunto de circulação dentro da congregação.
A Igreja deve ser um lugar seguro para quem procura ajuda, e não mais uma fonte de exposição e sofrimento.
5. UM APELO AOS CASAIS CRISTÃOS
Antes de procurarmos identificar as falhas do nosso cônjuge, precisamos de ter coragem para olhar para dentro da nossa própria relação.
Como está a nossa mesa?
Ainda conseguimos conversar? Ainda partilhamos as nossas preocupações? Ainda temos tempo para ouvir um ao outro? Ainda conseguimos sentar-nos juntos sem que o telemóvel seja mais importante do que a pessoa que está diante de nós?
E como está a nossa cama?
Ainda existe carinho, respeito, proximidade e cumplicidade? Ainda cuidamos da intimidade do nosso casamento? Ainda demonstramos que desejamos construir uma vida juntos?
Não esperemos que o nosso casamento chegue ao limite para começarmos a cuidar dele.
Não esperemos pela ameaça de separação para aprendermos a conversar.
Não esperemos pela infidelidade para começarmos a valorizar a fidelidade.
Não esperemos pela ausência definitiva para reconhecermos a importância da presença.
E, acima de tudo, não confundamos a manutenção de uma aparência familiar com a existência de uma família saudável. Onde existe violência, ameaça ou risco de vida, procurar protecção e ajuda especializada é indispensável.
CONSIDERAÇÃO FINAL
A mesa e a cama são duas dimensões que merecem atenção permanente dentro de qualquer casamento.
Uma família não se sustenta apenas porque os seus membros vivem debaixo do mesmo tecto. Sustenta-se também pela qualidade das relações que são construídas diariamente.
Talvez este seja um dos grandes desafios da Igreja contemporânea: ensinar sobre o casamento, mas também preparar os casais para viverem o casamento; pregar sobre a família, mas também desenvolver mecanismos para acompanhar as famílias.
Porque não basta celebrar casamentos no altar da Igreja se, dentro de casa, os altares da comunhão e da intimidade estão a ser abandonados.
Cuidemos da mesa. Cuidemos da cama. Cuidemos da aliança. Cuidemos da família.
Que Deus nos ajude a compreender que a saúde espiritual de uma família também deve produzir frutos na maneira como os seus membros se amam, se respeitam, dialogam, cuidam uns dos outros e enfrentam as dificuldades da vida.
Jescom Lourenço

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